O Time do Povo Catarinense

As cores que formam o mais intenso contraste revelam um significado que vai muito além de uma imponente estética. No caso deste time, especialmente, as cores representam a força popular que o ergueu e que o manteve forte e grandioso, mesmo nos momentos mais dramáticos.

O Figueirense Futebol Clube registrou na sua história uma relação diferenciada dos demais clubes catarinenses, pois não construiu sua trajetória através dos trilhos da elite social, nem tampouco precisou utilizar-se da identidade política da cidade para consolidar seu apelo popular. O Figueira possui sua própria identidade, a qual se confunde com a imagem de sua torcida, aguerrida e vibrante, como tal destaca o velho hino.

Em nove décadas, gerações se sucederam. A platéia tornou-se torcida, e a torcida tornou-se nação. Apesar da elitização do futebol que vem, nos últimos anos, ofuscando o brilho das arquibancadas alvinegras, as quais, inclusive, tornaram-se mais verdes do que nunca, é evidente a íntima relação desse clube com as mais populares comunidades. Celebra-se aqui, portanto, o futebol brasileiro na sua mais intensa expressão: a mobilização do povo.



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Créditos: Júlio Gonçalves

Este é o Figueirense

Videoclipes:



De 1921 a 1951 – Os Figueirenses

Em 1921, Florianópolis era uma pequena capital provinciana e isolada, cuja sede se encontrava desligada do continente por um estreito canal de águas rasas. Surgiu, por esta razão, um intenso envolvimento da cidade com as práticas marítimas, dentre as quais se destacava o remo.

A divisão política do município estava adequada a suas dimensões, coexistindo diversos conjuntos urbanos no que atualmente compreende apenas um bairro: o Centro. Situavam-se ali, dentre outros, os bairros da Rita Maria, do Menino Deus, do Mato-Grosso, da Tronqueira, da Praia de Fora, do Arataca e da Figueira. Este último compreendia as imediações das ruas Conselheiro Mafra e Padre Roma que, naquela época, eram caracterizadas como arrabaldes.


Antigo bairro da Figueira.

Nesse contexto, surge o Figueirense Futebol Clube, em 12 de junho, das mãos de vinte e dois jovens amigos do bairro da Figueira, liderados pelo sindicalista João dos Passos Xavier, que se tornou o primeiro presidente do Clube. Funcionário do grupo Hoepcke, Xavier chegou a ser empregado do Dr. Aderbal Ramos da Silva, que se tornaria governador do estado e um dos mais ilustres torcedores do Avaí, time rival, fundado em 1923. Segundo o benemérito Agenor Povoas, “o Figueirense surgiu por gente fraca na sua apresentação social, mas elevada pela firmeza de suas convicções”.

Os jogadores, torcedores, diretores, enfim, todos os que se envolviam com o futebol do Figueira eram chamados de "figueirenses", termo adjetivo que foi sendo substituído, ao longo do tempo, pelo consagrado "alvinegros".

Destaca o historiador Maury Borges que a trajetória do Figueirense teve um início difícil e conturbado. “Parece simples explicar. O Avaí pertencente à elite social, somava maiores facilidades de acesso às fontes de divulgação da época, enquanto o Figueirense, resignado pela sorte e pela humildade de seus fundadores, lutava em sucessivas crises financeiras e administrativas. (...) A diferença de clube do povo para clube da elite, diz tudo”.

Os Figueirenses de 1923.

Desde o primeiro clássico, registrou-se a presença de uma notável assistência cujo destaque principal era a atuação feminina. A rivalidade, que nasceu no campo, logo se transferiria para as arquibancadas, dividindo as torcidas e, por conseqüência, a cidade inteira. A história nos mostra que, no entanto, essa divisão foi construída de forma desigual.

De acordo com a obra de Borges, o jornal “A Gazeta” em edição de 1936 lançou um concurso para definir qual clube era o mais simpático da cidade. Com maioria dos votos, venceu o time da Figueira, que foi premiado com um troféu. O Avaí, originário da Pedra Grande (atual Agronômica), terminou em segundo lugar, recebendo uma bola de futebol.

Em 1951, a Rádio Diário da Manhã promoveu o clube preferido da opinião pública. Novamente, a maioria alvinegra se evidenciou, consagrando o Figueirense com 8.931 votos, contra 6.260 do rival.

Créditos: Acervo da UFSC

1960 – A Invasão Alvinegra no Continente

Mais do que um marco patrimonial, a escolha do Figueirense pelo Continente transformou os rumos de sua história. Ao transferir sua sede para a parte continental da cidade, o Figueira acabou atraindo milhares de torcedores dos municípios vizinhos, os quais concentram grande parte da população da região. O Estádio Orlando Scarpelli foi construído no coração da região de maior densidade demográfica de Santa Catarina, que contempla os núcleos urbanos do Centro, do Estreito e de São José. Este último, por si só, é mais populoso que o município de Criciúma em toda sua extensão.

Estádio Adolfo Konder (hoje Beiramar Shopping): casa do Figueirense até 1960.

Desde muito cedo o acanhado Campo da Liga (Estádio Adolfo Konder) mostrou-se insuficiente para suportar a massa alvinegra e suas ambiciosas pretensões. Desta forma o Figueirense se tornou o primeiro clube catarinense a erguer um grandioso estádio, apelidado inicialmente de Brinco de Ouro do Estreito e consagrado como a casa mais visitada de Santa Catarina. Foi dos braços do Orlando Scarpelli que, pela primeira vez neste Estado, se ouviu o grito de trinta mil vozes a empurrar um time de futebol.

A nova casa alvinegra em construção.

A construção de uma praça de esportes nas dimensões pretendidas, numa cidade ainda sem grandes possibilidades econômicas, foi um processo lento e difícil. O time sacrificou anos de sua prática esportiva para angariar recursos na construção de sua casa. Primeiramente, em 1945, transferiu sua sede para o bairro do Estreito, iniciando as obras para construção do campo somente em 1948. Apenas 12 anos depois, em junho de 1960, foi parcialmente inaugurado o Estádio Orlando Scarpelli, e o clube passou a mandar seus jogos, definitivamente, na parte continental da Capital.
No início dos anos 70, a "Coloninha" (antiga geral do Scarpelli) foi concluída, e o Estádio passou a ter a capacidade de comportar cerca de trinta mil torcedores. O orgulho de possuir o único estádio da cidade capaz de sediar jogos do Campeonato Nacional foi a grande recompensa após muitos anos de lutas.


A maior realização patrimonial do futebol catarinense até então.

Antigo estacionamento na Av. Santa Catarina - Invasão de automóveis no Estreito.

Unidos da Coloninha

A comunidade da Coloninha, situada no coração do Estreito, sempre esteve intimamente relacionada com a história do Figueirense. Surgida em meados dos anos 40, quando da construção de alguns humildes casebres de chão batido próximos à antiga fábrica de chapéus do senhor Orlando Scarpelli, a Coloninha tornou-se símbolo da popularidade do Clube. Em 1962, juntamente com a definitiva transferência do time alvinegro para a região, nascia a mais popular das escolas de samba de Santa Catarina: a Unidos da Coloninha.

Esta agremiação cultural e recreativa teve no Figueirense, sua principal referência. A escola cuja identidade se veste de verde e azul tem no coração a paixão pelo preto e branco, e nunca escondeu isso. Das quatro grandes escolas de samba de Florianópolis, das quais fazem parte avaianos e alvinegros, a única que apresenta uma enorme maioria, quase unânime, de torcedores de um único clube é a Unidos.

O Figueirense se orgulha de possuir grandes representantes em diferentes setores culturais e a Unidos da Coloninha, com toda a sua tradição no carnaval catarinense, é mais uma mostra da força da Torcida.

Atualmente, a Coloninha integra cerca de 3 mil componentes em seus desfiles, possui uma grande sede e realiza os ensaios ao lado do estádio Orlando Scarpelli. Recebeu recentemente, através do Instituto Brasileiro de Pesquisa de Opinião Pública, o título de escola de samba mais querida de Santa Catarina.


Crianças da Unidos da Coloninha em desfile de 1962.


A Escola de Samba dos Alvinegros.
Créditos: Marco Nunes e Site da Unidos da Coloninha

Década de 70 – Anos Dourados

A década de 1970 foi, sem dúvida, a mais importante da história do Clube. Não por conta das conquistas, as quais já foram superadas em tempos mais recentes, mas porquanto tornou-se o Figueirense o mais prestigiado time de Santa Catarina. Quando da comemoração dos seus cinqüenta anos de vida, surge um Figueirense renovado, de casa nova, com um novo e definitivo símbolo estampado no peito, esbanjando simpatia. Após décadas de inferioridade, o futebol da capital foi restaurado.

Os holofotes da imprensa estavam todos direcionados ao Orlando Scarpelli; os tradicionais bailes preto e branco agitavam as noites da cidade; a tietagem fez brilhar os ídolos, dentro e fora de campo; a liderança marcante do Major Ortiga dava personalidade à diretoria; enfim, o futebol alcançava seu auge no Brasil e, em Santa Catarina, o protagonista era o Figueirense. Vestir as cores preto e branco estava, mais do que nunca, na moda. E foi no período entre 1970 e 1980 que, possivelmente, registrou-se o maior crescimento da torcida alvinegra.


Figueirense no Scarpelli - Década de 70.


O incansável Major Ortiga nos braços da torcida.

A torcida passou a fazer parte do espetáculo. Deixou de ser uma mera espectadora para tornar-se atuante durante o jogo. O destaque era imenso em razão de haver apenas um representante catarinense participando do Campeonato Nacional. O clube alvinegro mostrou para o Brasil sua força popular, batendo sucessivos recordes na presença de público e atingindo uma média de cerca de dez mil torcedores por jogo. O Figueirense construiu uma base sólida para conseguir suportar as intensas crises que ainda estavam por vir.



Foto utilizada em publicidade do Figueirense nos jornais da época.


Toninho Catarinense, craque do Figueira, na capa da revista Placar (outubro de 75).

O Gigante Acordou

Jornal O Estado:



"Eram 5 horas e 22 minutos da tarde quando um velho DC-3 da FAB fez uma suave curva sobre o Orlando Scarpelli. Aqui embaixo, um homem de preto, baixo e atarracado, ergueu sua mão direita para o céu. Era o sinal.

Egon, com uma vistosa camisa amarela, saiu correndo para o túnel, assim como todos os outros jogadores do Figueirense. Os portões do alambrado foram abertos pela torcida e de repente, o gramado – palco e posse, até ali, de 22 pessoas – transformou-se numa grande festa. Era o campeonato voltando à Capital, depois de 13 anos, e voltando ao Figueirense depois de 32.

Uma imensa bandeira alvinegra foi aberta e começou a circular, já tocada pela glória do título. Tão grande era, que envolveu um policial nas suas malhas. Este, irritado, deu uns puxões nos torcedores, escusando-se a dar trânsito ao público. "É Avaí! É Avaí!", gritaram.

No meio do campo se ascendiam velas. Pela esquerda, surgia carregado nos ombros o treinador Jorge Ferreira, que um pouco depois, de sapatos e meias, colocava os pés sob uma torneira.

Foi a hora em que, voltando dos vestiários, a equipe campeã iniciou a volta olímpica. Mesmo depois do jogo, o preparo físico estava excelente. Tentando acompanha-la, o presidente José Mauro Ortiga, apesar de ter tirado seu pesado capote, ficou na metade do caminho. À esquerda das cadeiras especiais, a torcida do Avaí a tudo assistia em silêncio.

(...)

Nas ruas a festa prosseguia. O número de pessoas e carros que lentamente deixava o estádio assegurava que, desta vez, o futebol voltou para a ilha para ficar, trazido pelo Figueirense, um time que nunca deixou de estar em ascensão, durante todo o campeonato."

Figueirense 0 x 0 Avaí. Orlando Scarpelli, Florianópolis, 3 de setembro de 1972. O futebol de Santa Catarina assistia ao despertar de um gigante: o maior fenômeno popular do esporte catarinense voltava a figurar entre os consagrados campeões estaduais, em busca da hegemonia perdida na década de 40. A conquista de 72, sobre o maior rival, não foi importante apenas para o clube alvinegro, mas para o campeonato em si, que até então não tinha visto uma comemoração de tamanha expressão.

1972 e 1973 – A Consagração da Maioria

Nas disputas entre Avaí e Figueirense, pelas finais do Campeonato Catarinense e pela participação no Campeonato Nacional, a diferença nas arquibancadas tornou-se explícita: a maior torcida era alvinegra.

Naquela época, vale dizer, Florianópolis ainda era o município mais populoso de Santa Catarina, seguido por Lages. Por si só, a Capital já garantia a maioria alvinegra. Mas foi a conurbação regional (com destaque para os municípios de São José e Palhoça) que, desde então, determinou o marcante desequilíbrio com relação aos outros clubes na disputa pela preferência.


Scarpelli em 1972 – Faixa parcialmente registrada pela fotografia enunciava: Figueirense, a maior torcida.

Em 1973, a revista Placar, em edição especial, promoveu o concurso “O Mais Querido”, que consagrou as maiores torcidas em cada estado brasileiro. Em Santa Catarina, a publicação reconheceu a força popular do Figueirense.


Pôster do time do Figueirense, publicado na revista Placar em 1973.

Torcida Feminina Figueirense

No dia 8 de agosto de 1972, o jornal O Estado trouxe extensa reportagem que retratava a expressiva presença feminina nas arquibancadas do Figueirense. Surgia então, dos belos traços da mulher catarinense, a torcida mais bonita do Brasil.



“Algumas não entendem nada de jogo, e ficam paquerando todo o tempo. Mas há as que, entendendo, sofrem, roem unhas, se despenteiam. Está próximo o dia em que uma delas, depois de derrubar meia dúzia de Brahmas no bar, vá até o alambrado e com o copo em riste, dê o grito de guerra: Figueirensôôôôôô!”


As alvinegras de 70. Hoje elas são as vovós da nova geração.

1975 - A Festa do Povo

Em 8 de outubro de 1975, circula o jornal O Estado, com foto produzida no dia anterior, com a manchete “Figueira tem a maior festa que a cidade já tributou ao futebol”. Mais de trinta anos depois, ainda não se teve notícia de fato semelhante.

Após o time se classificar para a fase final, vencendo o Bahia, em plena Fonte Nova, a capital catarinense se pintou de preto e branco. Naquele momento, não apenas brilhava o nome do time pelo país, mas também o nome da Cidade e do Estado. O orgulho se traduziu numa enorme projeção popular e o time desfilou em carro aberto através de uma multidão de torcedores que se concentrava na Praça XV de Novembro.

Aquele dia ficou marcado na memória da cidade como o dia em que o Figueirense mostrou-se, verdadeiramente, um gigante. Cerca de dez mil torcedores participaram da grande festa, que se iniciou na segunda-feira pela manhã e terminou na madrugada do dia seguinte. O time desfilou em caminhão da polícia militar e foi recebido pelo governador e pelo prefeito da Capital.

Foi a maior mostra do imenso prestígio alcançado na década de 70 e que acabou sendo, em grande parte, desperdiçado. Se o time tivesse conquistado, ao menos, um ou dois títulos durante a década seguinte, certamente teria fôlego para se firmar na elite do futebol brasileiro. A sucessão de vice-campeonatos e os fracassos financeiros acabaram por adiar esse feito.



Uma interminável caravana de carros desfilou pelo Centro.


A torcida, desde cedo, aguardava a chegada do time no Aeroporto Hercílio Luz.

Figueirense Parou Florianópolis




Com o título: "E a cidade parou...", o aludido jornal publicou, nos dias que sucederam aquela histórica comemoração, caderno especial que trazia uma seleção de fotografias da festa. Dentre as quais destacavam-se duas: a que mostrava a multidão que invadiu a Praça XV de Novembro e outra, colocada no centro da primeira página, que registrava em meio ao imenso tumulto uma senhora sorridente. Naquele momento, Florianópolis era a cidade de um só time.


Foto destacada nos registros do jornal.


Milhares de torcedores invadiram as ruas da cidade.


Carros desfilavam com as bandeiras alvinegras.


Os gritos de "Figueeeeeira" eram os mais exaltados.


A Festa no Estreito.

Créditos: Arquivos do Jornal O Estado

Mais de 15 mil Torcedores por Jogo

A força do Figueirense na década de 70 também se revela em números. A média de público alcançada em 1975 é, até hoje, imbatível em Santa Catarina.

Confira as maiores médias de público da história do Campeonato Brasileiro (por clube):

1. Flamengo: 66.507 (1980)
2. Atlético-MG: 55.664 (1977)
3. Santos: 49.306 (1983)
4. Corinthians: 47.729 (1976)
5. Internacional: 46.971 (1979)
6. Bahia: 46.291 (1986)
7. Vasco: 46.281 (1983)
8. Fluminense: 43.541 (1976)
9. Palmeiras: 42.417 (1983)
10. São Paulo: 41.179 (1981)
11. Cruzeiro: 37.035 (1983)
12. Grêmio: 36.648 (1981)
13. Sport: 35.580 (1998)
14. Botafogo: 34.720 (1981)
15. Náutico: 30.918 (1983)
16. Goiás: 28.158 (1983)
17. Vitória: 27.022 (1993)
18. Atlético-PR: 23.801 (1983)
19. Fortaleza: 23.731 (2005)
20. Coritiba: 21.754 (1980)
21. Figueirense: 16.696 (1975)

Fonte: Revista Placar - Guia do Brasileirão (2008 e 2009).

Os dados podem ser conferidos no site da Rec. Sport. Soccer Statistics Foundation (RSSSF).


1979 - Todos na Primeira Divisão

Em 1979, o Figueira participou do maior Campeonato Brasileiro da história. Dentre os 94 times participantes, estiveram presentes outros quatro clubes de Santa Catarina: Joinville, Criciúma, Avaí e Chapecoense.

Segue, abaixo, a média de público das cinco maiores torcidas de Santa Catarina:

1º Figueirense Futebol Clube: 9.894 torcedores por jogo
2º Joinville Esporte Clube: 7.400 torcedores por jogo
3º Criciúma Esporte Clube: 4.705 por jogo
4º Avaí Futebol Clube: 3.824 torcedores por jogo
5º Associação Chapecoense de Futebol: 2.158 torcedores por jogo

Fonte: Futpédia:
http://futpedia.globo.com/

Vale lembrar que o estádio Orlando Scarpelli, por ordem da CBF, recebeu todos os jogos do time do Avaí, por ser o único estádio de Florianópolis capaz de sediar jogos de nível nacional.


Em 1979 o Orlando Scarpelli recebeu sua última grande reforma.

1984 – Novamente Consagrada

No final da década de 70 e início da década de 80, a estrutura do futebol catarinense mudou drasticamente. Times tradicionais como Metropol, Caxias e América desapareceram, dando lugar a novas e fortes equipes. Desta vez, os times não mais representavam clubes, mas cidades. Figueira pela força popular e Avaí pela força política resistiram, a muitas custas, a essa nova ordem do futebol estadual.

Em 1984, depois de ter perdido o título do ano anterior em seu próprio estádio, completamente lotado, num empate sem gols com o time de Joinville, o Figueirense teve nova chance de levantar a taça. Mas, infelizmente, acabou por repetir o resultado do ano anterior, contra o mesmo Joinville, no mesmo Scarpelli, na frente dos mesmos 25 mil torcedores.

Nesse campeonato, vale lembrar, registrou-se um dos maiores públicos em clássicos até então. Segundo a diretoria alvinegra, mais de 25 mil torcedores assistiram ao jogo, dos quais apenas 19.581 pagaram ingresso. A propósito, de acordo com o historiador Jairo Roberto de Sousa, dos cinco maiores públicos da história dos clássicos, quatro foram documentados no estádio do Figueirense.

No mesmo ano, conforme os registros do historiador Maury Borges, o jornal O Estado confirmou o que as arquibancadas continuavam a evidenciar. O resultado de mais uma promoção de ampla divulgação reafirmou o Clube como o mais querido de Santa Catarina. Num total de 51.929 votos, o Figueirense venceu com 42,7% e o Avaí ficou com 33,1%.


1985 – Duas Torcidas, Uma Tradição

No campeonato catarinense de 1985 os times da Capital se empenharam em conquistar o título de campeão, e as torcidas, mobilizadas, mostraram sua força nas arquibancadas.


Figueirense e a sua fanática torcida da década de 80.

Na penúltima rodada do hexagonal decisivo com espírito de semi-final, já que os vencedores decidiriam o título, Avaí e Figueirense jogaram em seus domínios contra fortes adversários. O Leão da Ilha pegou o Leão do Sul e o Furacão entrou em campo contra o JEC.

No dia seguinte, o jornal O Estado publicou as fichas técnicas dos jogos de Florianópolis:

Avaí 4x0 Hercílio Luz
Local: Estádio Governador Aderbal Ramos da Silva, na Ressacada, ontem à tarde.
Arbitragem: José Carlos Bezerra, auxiliado por João Manoel Florêncio e Jair Francisco da Rosa.
Gols: Catatau aos 16 e Duda aos 24 do primeiro, Décio Antônio aos 6 e novamente aos 41 do segundo tempo.
Renda: Cr$ 40 milhões e 16 mil.
Público pagante de 4 mil 706 pessoas.

Figueirense 1x2 Joinville.
Local: Estádio Orlando Scarpelli.
Arbitragem: Dalmo Bozzano, auxliado por Itamar Valente Vieira e Eurico Martins.
Gols: Wagner aos 24 pelo JEC, Vanusa aos 27 pelo Figueirense e Nardela, aos 34 pelo JEC, todos no segundo tempo.
Renda: Cr$ 148 milhões e 406 mil.
Público pagante de 10 mil 246 pessoas.

E a história assim se fez...

Os Símbolos do Figueirense

Muitos clubes brasileiros possuem uma identidade popular, como, por exemplo, Flamengo e Corinthians. No entanto, são poucos os que possuem uma relação tão próxima com sua torcida. O Figueirense é um dos únicos clubes do Brasil, senão o único, que possui como mascote consagrado, um símbolo de sua popularidade: um menino negro. O mascote do Avaí é o leão; o do Criciúma é o tigre; do Santos é o peixe; do Cruzeiro é a raposa; do Figueirense poderia ser um gavião, um furacão, ou até mesmo uma figueira. Mas foi justamente na imagem desse menino que o cartunista Zé Dassilva, do Diário Catarinense, encontrou maior identificação com a imagem do time do povo.







Fonte: Diário Catarinense

Além disso, o Figueira, assim como o Flamengo, possui dois hinos populares: o hino oficial e o hino da torcida. Não bastasse ter a torcida alvinegra sua própria canção, constata-se no próprio hino oficial, datado de 1970, uma extensa passagem dedicada à mesma:

Avante Figueirense
Pra frente Furacão
S’embora esquadrão de aço
És tesouro do meu coração

Tua torcida é garra, é empolgação
Vejo em ti pujança
De um grande esquadrão

Por ti torcemos
Por isso somo alvinegros
A força do Scarpellão

Por ti torcemos
Por ti vibramos
Figueirense
És o nosso campeão

1987 – A Torcida Campeã

Atualmente se percebe, quando da queda de um grande clube do futebol brasileiro à divisão inferior, uma grande mobilização das torcidas no sentido de ajudar o seu time do coração a voltar ao lugar que lhe pertence. Em 1987, ocorreu algo semelhante em Santa Catarina: o Figueirense, clube mais popular do Estado, disputava, pela primeira e única vez, uma humilhante segunda divisão. A torcida compareceu em massa ao Scarpelli e a imprensa fez uma inédita cobertura do campeonato.

No dia 5 de dezembro daquele ano, após a desastrosa final contra a equipe de Blumenau, que ficou com o título em pleno Orlando Scarpelli, o jornal O Estado, com a manchete “Chuva, suor e lágrimas”, assim publicou:

“O Figueirense não foi o campeão, mas mostrou que tem uma torcida invejável, apaixonada. O apoio foi decisivo durante todo o campeonato e ontem à noite, quando o juiz Dalmo Bozzano encerrou a partida, acabou seu sonho, o de ser campeão depois de 13 anos. Não deu Figueira, mas nem por isso a torcida mostrou-se vingativa. Ao contrário, calou os torcedores do Blumenau, que comemoravam o título, com um aplauso a seus jogadores que com certeza não foi menos gratificante que a Taça Governador do Estado (...) Ser Figueirense é sobretudo, ser um apaixonado (...) O Figueirense não foi o campeão, mas sua torcida foi.”

1990 - Tens a Torcida Mais Fiel do Nosso Estado

Em 2 de dezembro de 1990, num domingo memorável, o Figueira finalmente sagrou-se campeão! Da Copa Santa Catarina. Copa Santa Catarina?

O Figueirense era um gigante tentando sobreviver num calendário de time pequeno. Com o estádio lotado e a torcida empolgada, a fraca competição ganhou valor e aquela final contra o Brusque parecia final de Copa do Mundo. O time ainda recebeu as faixas de campeão num amistoso contra o Botafogo do Rio de Janeiro, enobrecendo assim sua conquista. No entanto, aquilo tudo não passava de uma grande ilusão. O Clube se encontrava num dos momentos mais difíceis de sua história e a Copa Santa Catarina só serviu para mostrar que a única herança do glorioso passado era a sua fiel e invejada torcida.

Coluna de Mário Ignácio Coelho do jornal O Estado (04/12/1990)

O leitor já imaginou se o Figueirense estivesse disputando um título estadual ou uma classificação em Campeonato Brasileiro, o que aconteceria? O estádio Orlando Scarpelli, a julgar pelo que houve no domingo, seria pequeno para abrigar uma torcida carente de conquistas expressivas (...) O mais evidente, isto sim, é a fidelidade de um público excepcional, como pouquíssimos em Santa Catarina – seria o maior? – e dono de um salutar fanatismo que poderia ser catalisado para a construção de um clube mais sólido e sem alguns improvisos típicos do amadorismo que infelizmente campeia por aqui. A taça Santa Catarina, um apêndice de calendário, provou que a torcida pode assumir uma equipe mais qualificada.

Ainda levou algum tempo para que o Clube achasse, na força da torcida, o caminho para sua reestruturação.

Créditos: Jornal O Estado (04/12/1990)

1991 – Os Gaviões Alvinegros

A fundação daquela que se tornaria a maior torcida organizada de Santa Catarina deu-se num dos momentos mais difíceis da história do Figueirense. Coincidência, ou não, depois dela, o clube conquistou seis campeonatos estaduais, um título internacional e uma vaga na elite do futebol brasileiro. Com efeito, o Figueira voltou a ser respeitado no País, e a força, novamente, partiu das arquibancadas.

Por obra dos Gaviões, Santa Catarina conheceu o lança-fita, o bandeirão, os sinalizadores... Enfim, a festa diferenciada partiu do Scarpelli e se propagou ao interior do Estado através das caravanas.


Reportagem publicada em jornal.

Ao longo dos anos, a Gaviões foi se tornando a maior entidade de representação da torcida alvinegra. Transformou-se em referência estadual e atualmente é uma das mais respeitadas torcidas organizadas do Sul.

Gaviões no Scarpelli.

Créditos: Site da Gaviões

1993 – Recorde de Público


A casa mais visitada de Santa Catarina.

Mesmo após 19 anos de angústia, a torcida do Figueirense continuava a mostrar sua força. No Campeonato Catarinense de 1993, a torcida registrou o recorde de público em uma única temporada até então. O Figueirense recebeu o total de 134.312 torcedores, praticamente o dobro do que recebeu o clube campeão, Criciúma, com cerca de 76.600.

O levantamento foi feito pelo departamento financeiro da Federação Catarinense de Futebol em 1999.


Torcida rival é motivo de piada no Campeonato Catarinense de 1993.

1994 – A Invasão Alvinegra em Criciúma


Vinte anos de sofrimento e a festa do time do povo.

Conforme as proporções econômicas do futebol catarinense daquela época, dificilmente algum outro clube resistiria a vinte anos sem títulos estaduais; nas circunstâncias em que tudo ocorreu, poucas torcidas suportariam o que a torcida alvinegra suportou. De fato, o único título consolidado durante o histórico jejum de duas décadas, foi o de clube detentor da maior e mais fiel torcida de Santa Catarina.

Depois do campeonato de 1993, o qual consagrou a torcida, mas não o time, o Figueirense tinha novamente a chance de se tornar campeão estadual. A final seria, coincidentemente, contra o mesmo Criciúma, e a primeira partida seria no Estádio Heriberto Hülse.

A campanha de superlotação de ônibus e microônibus iniciou na semana anterior ao jogo, por iniciativa da Gaviões Alvinegros, com o apoio da diretoria alvinegra. Como já era de se esperar, faltou ônibus, e muitos torcedores viajaram até Criciúma de carro próprio. No dia do jogo, pela manhã, houve intensa confusão no embarque da torcida, ficando de fora mais de uma centena de torcedores uniformizados, pois não havia vaga nos ônibus nem nos carros particulares.

Quando a caravana alvinegra chegou à Criciúma, por volta das 15 horas, a cidade parecia deserta. Os criciumenses, em sua grande maioria, estavam na praia do Rincão para fugir do calor infernal. Logo na entrada da cidade, uma empresa anunciava um produto que no verão vende mais do que água. Ou melhor, tinha água. Uma piscina de porte médio foi invadida por torcedores do Figueirense, que se banharam cantando os gritos de guerra, desfraldando bandeiras e soltando foguetes. Foi ali que a galera alvinegra avisou: “estamos aqui”.

Quando os portões do estádio Heriberto Hülse foram abertos, ficou evidente a maioria de torcedores alvinegros na arquibancada. Foi uma loucura, quando a Gaviões Alvinegros chegou ao estádio, acompanhada pela velha Charanga do Paulinho. Tinha gente chorando de emoção, de felicidade. Gente sofrida que acreditou no time até o último minuto; que soube esperar duas décadas para, enfim, ver O Mais Querido campeão de novo.





A torcida alvinegra invadiu Criciúma em 1994.


Ainda sobre Criciúma, um detalhe importante: o torcedor adversário soube se comportar, sem violência. A torcida criciumense, ao apito final do árbitro Dalmo Bozzano, aplaudiu a galera do Figueirense, que incentivou o time do primeiro ao último minuto.

O público total foi de 6.386 torcedores, com cerca de 3.500 torcedores do Figueirense.

Torcida Invade o Gramado


Capa do Jornal Diário Catarinense mostra a festa da torcida.

Segue matéria do jornal O Estado publicada no dia posterior ao grande jogo:

"Depois de 20 anos na fila pelo título estadual, a torcida não agüentou e pulou as grades do Estádio Orlando Scarpelli ontem, invadindo o campo quando ainda faltavam nove minutos para o término da partida. Bêbados, alegres, felizes da vida, só a taça faltou à grande festa dos fanáticos que comemoraram a vitória.

Logo no começo, com “olas” perfeitas, a imensa torcida já anunciava “É campeão! É campeão”, mesclando seu grito de guerra com o samba vencedor do Salgueiro, “Explode coração, na maior felicidade, delírio meu Figueira...”

Uma hora antes do início do jogo, o Estádio Orlando Scarpelli estava com 70% de sua ocupação preenchida. A Gaviões Alvinegros chegou a explodir 50 baterias de foguetes (15 mil tiros), à meia hora do início da partida, de empolgação. E na entrada dos jogadores, foram mais 50 baterias, somadas a milhares de rolos de papel higiênico e fumaça preto-e-branca.



Reportagem da Rede Globo.

O primeiro gol de Ricardo, aos 18 minutos, enlouqueceu o público. Sem parar de gritar, veio o pênalti marcado por Dalmo Bozzano, que fez a torcida delirar. O estádio inteiro, num compasso só, pulava de alegria com os dois a zero sobre o Tigre.

Aos 36 minutos do segundo tempo, uma multidão se pôs rente às telas de proteção, e em poucos segundos invadia o campo para comemorar. Festa geral. Os jogadores do Criciúma corriam desesperados sob a perseguição dos torcedores alvinegros, em direção ao vestiário.

Com traves arrancadas e o campo totalmente tomado pela torcida, o árbitro Dalmo Bozzano encerrou a partida e passou às mãos da Federação Catarinense de Futebol a decisão do Campeonato. Mas com taça ou sem taça, os torcedores não quiseram saber. Não agüentaram nove minutos depois de 20 anos, e se abraçaram e deitaram sobre o gramado."

1996 – Surge a ASFIG

De uma simples iniciativa de um pequeno grupo de torcedores, nasceu, em 1996, a mais sólida associação de classe do futebol catarinense. Ela teve, no seu embrião, o exclusivo objetivo de engrandecer o patrimônio do clube e participar ativamente de sua modernização. Este foi o ponto de partida da Associação dos Torcedores do Figueirense, a ASFIG, que tem, entre suas responsabilidades, a de zelar pela manutenção da identidade alvinegra, manifestando amor e fidelidade às tradições do clube.

Foi por iniciativa de seus associados que o Figueirense conseguiu realizar um dos mais importantes sonhos de sua história: a construção do Centro de Treinamento do Cambirela, um dos mais modernos do sul do Brasil. A viabilidade econômica para a concretização do sonho foi garantida a partir do pagamento de mensalidades dos associados. A mais recente realização patrimonial com participação da associação foi a criação do Memorial do Figueirense Futebol Clube, instalado numa ampla e moderna área na praça esportiva do Orlando Scarpelli.

O ex-presidente e benemérito do Figueirense, Dr. Alcides Tavares, lembra que a ASFIG é a maior das heranças que deixou no clube: “acabei investindo no poder de mobilização da nossa torcida. Ela, andando pelas suas próprias pernas, gerou recursos e bancou a compra de toda área que hoje abriga o nosso CT na Palhoça. É por isso que digo: feliz do clube que tem uma torcida como a do Figueirense”.


CFT do Cambirela, inaugurado em 2000.

Colaboração: Dr. Alcides Tavares

1997 – As Marcas do Contraste Social


A força da torcida alvinegra na década de 90.

No dia 23 de outubro de 1997, a Folha de S. Paulo publicou uma matéria em circulação nacional que abordava a crise do futebol de Florianópolis, cogitando, inclusive, a fusão entre Avaí e Figueirense. A reportagem descreveu a lastimável situação na qual se encontrava o futebol da cidade, mas preocupou-se em destacar os aspectos que sempre diferenciaram a natureza de cada clube:

“Clube mais popular da capital, o Figueira é uma espécie de Corinthians do Sul, que, a exemplo do paulista, adota uniforme alvinegro e possui torcedores conhecidos como gaviões (...) O Figueirense deve cerca de R$ 1 milhão, entre dívidas trabalhistas, rescisões contratuais e até atraso no pagamento de luz e água. A renda mensal, obtida com os associados, é de apenas R$ 25 mil.”

“Considerado um clube de elite, o Avaí tem entre seus torcedores comerciantes, empresários e profissionais liberais. Na hora do aperto, essa torcida endinheirada não deixa o time afundar afirmou Alexandre de Campos, vice-presidente da torcida organizada Trovão Azul.”

Aliás, um grito da torcida avaiana que ilustra muito bem essa condição cultural, é o que costumava surgir logo após um gol do Avaí contra o Figueirense: “ela ela ela, silêncio na favela”.

Na prática, as preferências se universalizaram e a diferença social, marcante até certo tempo, já não existe mais. O que persiste, e é ressaltado pelo cotidiano, é uma notável maioria alvinegra em todas as classes, sobretudo (e aí se insere uma tradição deste clube), nas comunidades mais carentes.


Créditos: Arquivos do Folha Online

1999 – O Confronto das Torcidas da Capital


Torcida do Figueirense fez, novamente, a diferença em 1999.

O ano de 1999 foi marcante na história do confronto entre Figueirense e Avaí. No início do ano, a equipe avaiana, que havia recém conquistado o título do Campeonato Brasileiro da Terceira Divisão, eliminou o Figueirense pela primeira fase da Copa do Brasil. Vale lembrar sem grandes alardes, já que o seguinte fato corresponde à natureza histórica do clássico, que o público no estádio do Figueirense foi maior do que no estádio do Avaí, mesmo sendo este último o confronto decisivo.

Clássico no Scarpelli.

Já pelo Campeonato Catarinense, as duas equipes chegaram à final da competição, e o Figueirense levou o título. Apesar de ter conquistado dois campeonatos consecutivos, em 1997 e 1998, o Avaí não conseguiu superar, em média de público, o Figueirense, que não conquistava um título expressivo desde 1995.


Capa do Jornal "A Notícia" mostra a festa no Scarpelli.

Média de Público Pagante - Campeonato Catarinense (1999)
- Figueirense: 4.317
- Avaí: 2.522
- Joinville: 2.278
- Criciúma: 1.743

Fonte: Federação Catarinense de Futebol.

Final do Campeonato Catarinense de 1999 - Figueirense 2x1 Avaí

Confira os maiores públicos nos Clássicos:

1º 21.846 - Figueirense 2x2 Avaí (Orlando Scarpelli 21/05/2000)
2º 21.672 - Figueirense 2x0 Avaí (Orlando Scarpelli 07/12/2001)
3º 19.835 - Figueirense 0x0 Avaí (Orlando Scarpelli 10/07/2002)
4º 19.682 - Figueirense 1x1 Avaí (Orlando Scarpelli 13/04/1975)
5º 19.608 - Avaí 2x1 Figueirense (Aderbal da Silva 09/04/2000)

Fonte: SOUSA, Jairo Roberto de. Figueirense x Avaí: o clássico de Florianópolis. Florianópolis: Tribo da Ilha, 2005. 405p.

2000 e 2001 – A Desigualdade na Segundona

Diferentemente do Campeonato Catarinense, no qual o desempenho de cada time determina, na maioria das vezes, sua média final de público, no Campeonato Brasileiro é possível comparar a presença das torcidas mediante relativa igualdade de condições. Nos anos de 2000 e 2001, os principais clubes de Santa Catarina se encontravam na Segunda Divisão, ou seja, o nível de motivação das torcidas era equivalente. No entanto, como já era de se esperar, o Figueirense obteve a maior média de público:

Média de Público Pagante - Campeonato Brasileiro da Série B (2000)
- Figueirense: 7.150
- Joinville: 6.514
- Avaí: 6.089
- Criciúma: 2.894

Média de Público Pagante - Campeonato Brasileiro da Série B (2001)
- Figueirense: 8.321
- Avaí: 4.947
- Joinville: 1.783
- Criciúma: 1.747

Dados da Federação Catarinense de Futebol.


Onze guerreiros e meio milhão de apaixonados.

De Volta à Elite


Capa do Jornal Diário Catarinense no dia 31/12/2001.

O que deveria ter se tornado realidade ainda na década de 80, quando o clube somou sucessivos “quases” na consagração maior de seu futebol, acabou por acontecer apenas vinte anos depois. No ano de 2001, como aconteceu em 1994 e como quase aconteceu em 1999, a torcida invadiu o campo antes do término da partida final.

O quadrangular decisivo foi disputado entre Figueirense, Avaí, Caxias e Paysandu. Na rodada final, os jogos entre Figueirense x Caxias, no Orlando Scarpelli, e Paysandu e Avaí, no Pará, definiram o campeão e o vice-campeão da competição.

O público documentado no jogo do Scarpelli ultrapassou a capacidade oficial do estádio: 22.530 torcedores passaram pelas catracas do Figueirense e cerca de 2 mil invadiram o campo aos 46 minutos do segundo tempo. Diferentemente de 1994, quando a invasão se deu por iniciativa voluntária da torcida, em 2001, por um gesto mal interpretado do juiz, os torcedores que já se encontravam na beira do gramado acabaram por invadir também o campo de jogo. O título de vice-campeão acabou sendo decidido na justiça desportiva e o Figueirense, mesmo perdendo os pontos da partida, sagrou-se, juntamente com Paysandu, o mais novo integrante da primeira divisão de 2002.

O gol que garantiu a grande consagração.

2002 e 2003 – Novos Recordes

Dez anos depois de realizar feito impressionante atraindo, numa única edição do Campeonato Catarinense, mais de 130 mil torcedores, o Figueirense registra outra marca histórica em Santa Catarina.

Nos anos de 2002 e 2003, a média de público do Figueirense, no Campeonato Catarinense, foi superior às médias de público de Avaí, Criciúma e Joinville somadas.


Scarpelli em 2003.

Média de Público Pagante - Campeonato Catarinense (2002)
- Figueirense: 7.324
- Avaí (2.638) + Criciúma (1.950) + Joinville (1.088): 5.676

Média de Público Pagante - Campeonato Catarinense (2003)
- Figueirense: 9.236
- Avaí (2.169) + Criciúma (3.358) + Joinville (1.516): 7.043

Dados da Federação Catarinense de Futebol.

2004 - A Sétima Torcida do Brasil


Estádio Orlando Scarpelli.

No ano de 2004, após consolidar sua presença na elite do futebol brasileiro, o Figueirense conquista o respeito do Brasil, tanto nos gramados quanto nas arquibancadas. Com uma média de público pagante de 10.465 torcedores por partida, a torcida alvinegra superou grandes torcidas nacionais, como a torcida do Flamengo, do Vasco, do São Paulo, do Fluminense e do Botafogo.



Gaviões Alvinegros.

Segue abaixo a classificação das torcidas quanto à média de assistência no Campeonato Brasileiro de 2004:


1. Corinthians/SP: 13.527
2. Paysandu/PA: 13.143
3. Atlético/PR: 12.979
4. Santos/SP: 12.870
5. Palmeiras/SP: 12.791
6. Atlético/MG: 10.538
7. Figueirense/SC: 10.465
8. Flamengo/RJ: 9.707
9. Internacional/RS: 9.363
10. Goiás/GO: 9.133
11. São Paulo/SP: 8.586
12. Fluminense/RJ: 7.666
13. Grêmio/RS: 7.432
14. Coritiba/PR: 7.393
15. Criciúma/SC: 6.599
16. Cruzeiro/MG: 6.074
17. Vitória/BA: 5.936
18. Botafogo/RJ: 5.541
19. Juventude/RS: 5.038
20. Vasco/RJ: 4.770
21. Paraná/PR: 4.047
22. Guarani/SP: 3.852
23. Ponte Preta/SP: 3.826
24. São Caetano/SP: 2.480

Fonte: CBF

A Torcida Reergueu o Clube

O crescimento do futebol do Figueirense deu-se pelos braços da torcida, e a recente evolução histórica prova isso:

No ano de 1998 o Clube amargurava grave crise financeira que se alongou por mais de uma década. A inesperada onda de inflação do futebol tornava sem efeito o esforço de seus valorosos dirigentes. Foi então que uma eficiente administração, comandada pelo ambicioso Paulo Sérgio Prisco Paraíso (foto) e financiada por um grupo de empresários, resolveu apostar na força da torcida.

Em junho de 1999, alguns meses depois de iniciada significativa campanha de ampliação do quadro associativo, o Figueirense comemorava a adesão de cerca de 3 mil novos sócios, tornando-se o clube com o maior número de associados em Santa Catarina. O imenso fluxo financeiro desamarrou o Clube de suas antigas pendências e o fez respirar. Sua pioneira transformação empresarial fortaleceu a máquina administrativa e a torcida foi o combustível de todo o crescimento.

Em 2001, prestes a retornar à elite do futebol brasileiro, o quadro associativo contabilizava cerca de 6 mil sócios: força financeira que representava 20% do orçamento do clube. O licenciamento dos produtos da marca Figueirense, por sua vez, impulsionou a ampliação da estrutura comercial.

Em 2003, o número de sócios do Alvinegro alcançou a marca dos 9 mil, o triplo do que anunciava possuir o seu maior rival.

Em 2005, mais da metade do Orlando Scarpelli estava reservada aos sócios. O quadro associativo ultrapassou a média de público nas arquibancadas, com cerca de 12 mil contribuintes. Mesmo quem não costumava ir ao jogo com freqüência, pagava a mensalidade para ter seu lugar sempre reservado. A colocação de quase 20 mil cadeiras transformou o estádio: o velho semblante popular deu lugar a um visual arrojado e luxuoso.

A imponente "Arquibancada Central" deu origem ao Setor C.
Gaviões deslocou-se para a curva do Setor B.

Atualmente, o número de sócios flutua entre 10 e 12 mil torcedores, e a mensalidade, que em 1999 não passava de 20 reais, alcança hoje quatro vezes o antigo valor.

Créditos: Leonardo Estrela; Finet; Site Oficial do Figueirense e Jornal A Notícia (24/06/99)

A Média de Público nos Campeonatos Brasileiros

Estatística da Revista Placar revela as maiores médias de público, por clube, em todas as edições do Campeonato Brasileiro (Primeira Divisão) até 2006. O Figueirense, que completava naquele ano a sua 10ª participação na competição, aparece como a 5ª principal torcida do sul do Brasil.

1. Flamengo: 25.989
2. Bahia: 24.983
3. Atlético Mineiro: 24.602
4. Corinthians: 21.999
5. Cruzeiro: 19.378
6. Palmeiras: 18.296
7. Internacional: 18.158
8. Vasco: 17.579
9. São Paulo: 16.303
10. Grêmio: 15.924
11. Fluminense: 15.496
12. Santa Cruz: 15.721
13. Fortaleza: 14.635
14. Paysandu: 14.610
15. Santos: 14.210
16. Ceará: 13.955
17. Sport: 13.815
18. Goiás: 13.666
19. Remo: 13.578
20. Botafogo: 13.132
21. Coritiba: 12.750
22. Vitória: 12.985
23. Náutico: 10.761
24. Atlético Paranaense: 10.523
25. Figueirense: 10.041
26. Guarani: 8.769
27. Ponte Preta: 7.953
28. Paraná: 7.603
29. Criciúma: 6.266
30. Juventude: 5.386

Créditos: Revista Placar (Guias do Brasileirão)

2006 - Clássico em Lages

No ano de 2006, em razão da troca de gramado realizada no estádio Orlando Scarpelli, o Figueirense mandou grande parte de seus jogos do Campeonato Catarinense no Estádio Municipal de Lages, a 250 km de distância de Florianópolis.

As torcidas de Avaí e Figueirense, na iminência de um clássico no interior, competiram entre si para mobilizar o maior número possível de torcedores e mostrar, efetivamente, quem é a maior torcida ou, ao menos, a mais fanática.

Por causa da cobertura televisiva, compareceram apenas 3.824 torcedores pagantes no estádio de Lages, para assistir à partida que celebra a maior rivalidade de Santa Catarina. Destes, informou a imprensa, cerca de 3 mil eram alvinegros.

O jogo foi realizado no dia primeiro de fevereiro do referido ano, e o placar foi de 2x1 para o time de maior torcida. No fim, a confirmação do título estadual para o Figueirense fez com que o clube se tornasse isoladamente o maior detentor de títulos estaduais: 14 no total.


Final do Campeonato Catarinense de 2006 - Filmagem da Arquibancada.
Créditos: Arquivo do Jornal A Notícia.

2007 - Prestígio Nacional

No ano de 2007, a grande campanha na Copa do Brasil rendeu ao clube enorme prestígio nacional, sendo o time catarinense mais divulgado de norte a sul do País. Apesar da derrota na final, em pleno Scarpelli, a torcida apresentou para o Brasil inteiro a expressão de sua força. E é através desse impulso que o futuro ainda reserva grandes conquistas ao time do povo de Santa Catarina.

O vídeo abaixo ilustra com emoção esse marcante momento na história da torcida:


E virão muitas vitórias...

2008 - A Queda

Apesar da conquista do Campeonato Estadual, o ano de 2008 será lembrado, para sempre, com muita tristeza. O Figueirense afundou na falta de qualidade de seu elenco e, principalmente, na falta de atitude da sua direção. Acabou rebaixado, pelo critério de saldo de gols, a uma humilhante segunda divisão.

Nas últimas décadas, todas as vezes em que a diretoria do Figueirense se afastou da torcida, o resultado foi desastroso. Desta vez, não foi diferente: a majoração excessiva dos ingressos, a falta de apoio às torcidas organizadas e a falta de iniciativa na ampliação do quadro associativo são apenas alguns exemplos.

Mesmo assim, a maior e mais fiel torcida não decepcionou e obteve, ao final desta temporada, uma média muito superior à torcida do Avaí, a qual comemorou, sem expressão, o acesso à primeira divisão.

Média de público do Figueirense no rebaixamento: 9.003 torcedores.
Média de público do Avaí no inédito acesso: 6.863 torcedores.
Fonte: CBF

Como se viu, no ano de 1999 o Figueirense se achava numa divisão inferior a do seu maior rival, fato que, pelo Campeonato Brasileiro, acontecia pela vez primeira. Pois foi, justamente, nesta condição que o Clube reuniu forças e conseguiu superar, pela força da torcida, suas próprias limitações. A reação começou no campeonato estadual, quando o Furacão sagrou-se campeão, derrotando o time das antigas elites.

Dez anos depois, o acidente se repete. Que os ventos do passado inspirem, então, esta sofrida, mas incansável, nação alvinegra!

"Aqui é diferente. Aqui ninguém se rende. Pode esperar. Nós voltaremos!"


Futuro

O tempo passou e o Figueirense não é mais o mesmo. O bairro da Figueira desapareceu; o Campo da Liga desapareceu; Major Ortiga tornou-se lenda; Pinga, Sérgio Lopes e Albeneir tornaram-se lenda; a festa de 75 foi esquecida; o Ninho dos Gaviões e a Riosulense não existem mais; a Ponte Hercílio Luz e a Igreja Nossa Senhora de Fátima também desapareceram, atrás dos prédios do Estreito; os jogadores não são mais daqui; e grande parte dos torcedores também não.

Na medida em que a capital catarinense foi se transformando, o seu mais tradicional Clube também o foi. No entanto ainda permanecem os grandes valores que formam sua essência histórica.











A paixão resistiu ao tempo, atravessou gerações, classes sociais, raças e credos, uniu a Ilha e o Continente conquistando o coração do povo. O velho guerreiro de onze letras, quinze títulos e meio milhão de torcedores foi, é e sempre será o Mais Querido.

A Maior e Mais Fiel Torcida de Santa Catarina.